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IRONMAN BRASIL 2026: Triathlon É Um Esporte de Memória Curta?

Os atletas profissionais já haviam chegado e enquanto esperávamos a premiação da categoria feminina profissional do Ironman Brasil 2026. Resolvi sair do espaço onde ficam os fotógrafos, na chegada e procurar alguns ângulos diferentes para clicar.

Pouco antes do funil de chegada, no finalzinho da Av. dos Búzios, um dos maiores nomes da história do triathlon argentino passou correndo bem na minha frente. Campeão de Ironman. Um atleta que ajudou a escrever parte da história da modalidade na América do Sul. - Será que essas pessoas sabem quem ele é?! Pensei, pois ninguém parecia notar muito - Ouvi berros bem mais altos para o carinha que acabava de fazer a T2 (sem julgamentos aqui! sou desse time também).


Um tempo atrás, conversando com uma amiga muito talentosa, dedicada e já classificada para o Mundial de Ironman 70.3 em seu primeiro ano, perguntei se ela conhecia o primeiro brasileiro a vencer o Ironman Brasil. Ela respondeu que nunca tinha ouvido falar dele. - Mas conhecia vários dos amadores "hypados" das redes sociais.

Na sexta, antes da prova, fui à expo pegar as minhas credenciais de imprensa. Encontrei um amigo, fomos pegar um a açaí e no meio da conversa eu perguntei se ele sabia que um dos treinadores da assessoria dele havia sido campeão mundial de biathlon. Não sabia...Aquilo ficou na minha cabeça.



O triathlon vive, talvez, o melhor momento da sua história no Brasil. O número de praticantes cresce, as marcas investem cada vez mais, o esporte ganha espaço na mídia, surgem novas assessorias, lojas especializadas, tecnologias, suplementos, equipamentos, métodos de treinamento e recuperação. Entrar no triathlon nunca foi tão acessível, pelo menos do ponto de vista da informação, porque fisicamente nunca deixará de ser um esporte duro.

Esse crescimento também aparece nas provas. Em 2014, o circuito brasileiro da franquia IRONMAN contava com quatro eventos. Em 2026, já são sete etapas espalhadas pelo país. Enquanto isso, o IRONMAN Brasil chega à sua 24ª edição, consolidado como uma das provas mais tradicionais e importantes da América Latina.

*(E vale lembrar que esse crescimento também passa pelo trabalho de pessoas e instituições que dedicaram anos ao desenvolvimento da modalidade. O Instituto Arjon, impulsionado pela energia e pela visão do ex-triatleta profissional Thiago Vinhal, é um ótimo exemplo de como iniciativas fora das linhas de chegada também ajudaram a formar atletas, fortalecer a comunidade e expandir o triathlon pelo Brasil.)


Quem vive do esporte: Atletas, treinadores, fotógrafos, organizadores...Sente esse crescimento na prática. Mais gente significa mais oportunidades para todo mundo. Mas todo crescimento também cria pequenos efeitos colaterais.

Tenho a impressão de que os praticantes do momento conhecem muito bem o presente do triathlon, seus atletas, suas marcas, seus influenciadores e suas tendências, mas acabam tendo pouco contato com a história e com os personagens que fizeram esse esporte chegar onde está hoje.

Muitos talvez nunca tenham ouvido falar de nomes como Alexandre Ribeiro, Leandro Macedo, Sandra Soldan ou Alexandre Manzan. Além desses, outros até mais recentes, como Fábio Carvalho, Igor Amorelli, Santiago Ascenço e por ai vai. Abro um parêntese para falar da Fernanda Keller, pois ela realmente conseguiu furar muitas bolhas geracionais, o que não é de se estranhar para alguém com a carreira como a dela. Cada um, à sua maneira, ajudou a construir o triathlon brasileiro muito antes do esporte viver o momento de visibilidade que vive hoje.


Isso me lembra um pouco o que aconteceu com o surfe e o skate depois que se tornaram esportes olímpicos. As comunidades cresceram, ficaram mais diversas e profissionais, o que é excelente, mas em alguns momentos parte da cultura acabou ficando para trás.Talvez seja daí que nasça, ainda que de forma sutil, uma certa distância entre a "velha guarda" e quem está chegando agora. Não porque os novos atletas não respeitem quem veio antes. Muitas vezes eles simplesmente nunca tiveram contato com essas histórias.

Hoje, quem decide começar encontra assessorias especializadas, conteúdos gratuitos, canais no YouTube, grupos de treino, lojas focadas na modalidade, equipamentos para todos os níveis e uma comunidade muito mais aberta do que há alguns anos. É um cenário muito diferente daquele vivido por quem começou quando quase tudo era descoberto na base da tentativa e erro, e as fontes de informação vinham de fora com um delay enorme.

Esse avanço é excelente. Democratiza o esporte, encurta caminhos e faz com que cada vez mais pessoas descubram o triathlon. Mas talvez, nesse processo, estejamos encurtando também o caminho até a nossa própria história.

Um pensamento: 
Nessa copa tem sido muito falado sobre os símbolos que a Fifa colocou nas camisetas dos jogadores, indicando quem é novato, quem é das antigas e quem já foi campeão. E se de alguma forma copiássemos isso? Se as nossas "Lendas" carregassem em seu macaquinho - Já que muitos deles (as) ainda praticam o esporte - algum ícone que ajudasse ao público saber um pouco mais da sua história? Enfim, apenas uma ideia aqui!

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