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Efeito Fonseca: Bruno Soares escreve de Paris sobre o fenômeno que vai além do tênis

Paris tem um cheiro específico em junho. Argila vermelha, grama molhada dos jardins ao redor, café passado nas tendas de imprensa. Já estive aqui outras vezes cobrindo Roland Garros. Mas esta edição de 2026 tem algo diferente no ar e esse algo tem 19 anos, mede 1,88m, e responde pelo nome de João Fonseca. Quartas de final de um Grand Slam. Vinte e dois anos depois de Guga.

Mas antes de falar sobre o que ele fez na quadra, preciso te contar o que vi fora dela.

ANTES DAS CÂMERAS
Há um ritual nos bastidores de Roland Garros que a transmissão nunca mostra: o corredor entre o vestiário e a quadra. É ali, nos segundos antes de entrar, que você enxerga quem o atleta realmente é. Vi tenistas que parecem já ter perdido antes de atravessar a porta. Vi outros que transformam o nervosismo em raiva. O João atravessa esse corredor como quem está indo encontrar algo que ele já conhece. Nos bastidores, ele é exatamente o que aparece nas câmeras. Educado, atencioso, simpático com todo mundo, da imprensa à equipe de apoio do torneio. Desde os 14 anos, quando o vi pela primeira vez, sua essência não mudou em absolutamente nada. Isso, por si só, já diz muito sobre quem ele é.


"Nos bastidores não tem uma frase especial que traduza ele; é simplesmente a educação e a atenção dele com todo mundo." — Bruno Soares, de Paris

Você precisa entender o que significa estar dois sets a zero abaixo de Novak Djokovic na quadra central de um Grand Slam, com o Djokovic jogando no seu melhor nível. No mundo do esporte de performance, existe um momento específico que separa atletas bons de atletas grandes: o momento em que o corpo quer parar, a cabeça racionaliza a derrota e o ambiente ao redor já decretou o fim. A maioria dos atletas, em qualquer esporte, nesse momento administra a saída. Reduz o risco. Protege o ego. O João fez o oposto. Ele subiu o nível.

"Em vez de baixar a guarda e jogar a toalha, pelo contrário, ele cresceu na ocasião. Viu a necessidade de subir o nível e fazer coisas ainda mais difíceis e foi lá e virou esse jogo histórico." — Bruno Soares

Quem corre ultra, quem pedala em montanha, quem já chegou no km 80 de uma prova achando que não ia terminar — reconhece imediatamente esse estado. Não é coragem no sentido romântico. É uma escolha técnica feita sob colapso. E o João fez essa escolha.

TALENTO É SÓ O INGRESSO
O tênis é brutal de uma forma específica: para ser bom de verdade, você precisa ser fisicamente, mentalmente e tecnicamente extraordinário ao mesmo tempo. Não dá para compensar uma coisa com outra. O físico não salva o mental. O talento não sobrevive sem o trabalho. O João sabe disso melhor do que ninguém. Ele já mudou muito fisicamente do ano passado para este. Mas a parte mais impressionante não é o físico, é o nível de profissionalismo de um atleta que ainda vai completar 20 anos.

"Talento sem trabalho a gente não consegue tracionar. Esse é o efeito Fonseca." — Bruno Soares

Há uma armadilha que destrói muitos talentos precoces: eles acreditam que o dom é suficiente. O João parece imune a essa armadilha. Ele tem um time maravilhoso por trás, uma família que manteve os pés no chão, e uma consciência rara de que está no meio do processo, não no fim.

O BRASIL VOLTOU
Vinte e dois anos. É quanto tempo o Brasil esperou para ter um tenista masculino nas quartas de final de um Grand Slam. A última vez foi Guga, aqui mesmo, em Roland Garros, 2004. A repercussão deste Roland Garros foi muito parecida com o que vivemos naquela época: vitórias indo além da esfera do tênis, chamando a atenção de quem nunca acompanhou o circuito. O boom de crianças nas quadras. Empresas querendo fazer parte. O lifestyle tênis voltando com força. Mas tem uma diferença importante em relação ao Guga. O João chegou mais cedo, num circuito mais competitivo, mais jovem, com mais pressão mediática desde o início. E ainda assim carrega tudo isso com uma tranquilidade que desafia a idade.

"Você ter um ídolo como o João, extremamente disciplinado, profissional, educado e carismático, isso motiva, cria uma série de coisas em volta do esporte e é o que faz a gente mudar de patamar." — Bruno Soares

O QUE A COMUNIDADE ENDÖRFINA PRECISA SABER?
Para quem vive de endorfina, quem pedala de madrugada, quem corre trilha no fim de semana, quem sabe o que é treinar quando ninguém está olhando, o João Fonseca não é um fenômeno de tênis. Ele é um espelho. É o exemplo de que processo consistente bate talento isolado. Que maturidade não tem a ver com idade. Que o momento mais difícil da prova pode ser exatamente onde você encontra o seu melhor desempenho. O efeito Fonseca, nas palavras do próprio Bruno Soares, é o exemplo perfeito de todo mundo que quer conquistar algo grande na vida: dedicado, sério, comprometido, humilde, carismático e, acima de tudo, um trabalhador que sabe que talento sem esforço não vai a lugar nenhum.

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