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Bruno Soares: Entre o Legado em Wimbledon e a Confiança no Futuro do Tênis Brasileiro

Poucos atletas brasileiros conhecem Wimbledon tão bem quanto Bruno Soares. Seis vezes campeão de Grand Slam e um dos maiores duplistas da história do país, o mineiro voltou à grama mais tradicional do tênis para disputar o torneio de Legends e alcançou mais uma decisão em Londres.

Ao lado do britânico Jamie Murray, reencontrou também uma velha rivalidade: os irmãos Bob e Mike Bryan, adversários que marcaram uma geração do esporte. Em entrevista ao Jornal Endorfina, Bruno falou sobre o significado desse retorno, relembrou suas raízes em Belo Horizonte e analisou o momento vivido pelo tênis brasileiro.

 
Um convite que representa um legado 
Para Bruno, voltar a Wimbledon depois da aposentadoria tem um significado diferente daquele vivido durante a carreira profissional. Segundo ele, disputar o torneio de Legends representa um reconhecimento construído ao longo de décadas dentro do esporte.

"Voltar a disputar uma final em Wimbledon é sempre especial. Independente do tipo do torneio, é sempre um grande privilégio a gente estar pisando naquelas quadras. O torneio Legends é um torneio muito especial, que não é um torneio que depende de você, da sua classificação, e sim de um convite. Acho que torna isso muito especial também. É o reconhecimento de um trabalho de uma vida que foi feito."

 
A parceria com Jamie Murray continua intacta 
Mesmo após anos sem formar dupla regularmente, a sintonia com Jamie Murray apareceu naturalmente.

"A gente se conhece há muito tempo. Jogamos seis anos juntos no circuito. Hoje a gente entra em quadra e, num olhar, eu já sei o que ele está pensando, o que ele está sentindo, e vice-versa. É sempre muito natural."

Do outro lado da rede estavam Bob e Mike Bryan, considerados por muitos a maior dupla da história do tênis. Para Bruno, enfrentar novamente os americanos em Wimbledon tornou a decisão ainda mais especial. "Você estar lá dentro, em Wimbledon, no templo sagrado, jogando uma final de Grand Slam, num torneio de Legends contra os melhores da história... Acho que não fica muito mais especial do que isso."

 
A influência das raízes mineiras 
Natural de Belo Horizonte, Bruno acredita que muito do seu jeito dentro e fora das quadras nasceu em Minas Gerais.

"Eu sempre fui um cara super tranquilo dentro e fora de quadra, sempre procurei trabalhar duro, fazendo as minhas coisas, e o gostar de conversar, o gostar de bater papo, o gostar de sentar numa roda e conhecer pessoas. Acho que isso é da minha raiz."

Ao lembrar da infância, a imagem que permanece é a do garoto que sonhava chegar exatamente onde chegou. "Lembrar que aquele garoto com nove, dez, onze, doze anos estava aqui todo dia se esforçando, treinando no sol, aprendendo e sonhando um dia estar lá. Ele chegou. Eu vivi o meu sonho a vida toda."



Um novo momento para o tênis brasileiro
A edição de Wimbledon de 2026 marcou um momento histórico para o Brasil, que colocou representantes em quatro finais do torneio, entre elas a decisão do Legends com Bruno Soares e Jamie Murray. Para o mineiro, o resultado é reflexo de um trabalho que vem sendo construído há anos e mostra que o país vive uma nova fase no esporte.

Ele destaca que o bom momento vai além das duplas. Na avaliação de Bruno, a consolidação de João Fonseca entre os principais nomes do circuito, a sequência de resultados de Bia Haddad e o surgimento de jovens como Guto, Naná e Victória Barros mostram que existe uma geração forte chegando ao profissional.

Ao mesmo tempo, faz questão de lembrar que a transição do juvenil para a elite do tênis é um dos processos mais difíceis do esporte e que é preciso cautela antes de fazer projeções definitivas. Ainda assim, acredita que o cenário é promissor.

"Sem dúvida nenhuma, o tênis vive um momento muito bacana. Não só nas duplas, nas simples também. O João já está lá em cima. Está vindo uma geração atrás acompanhando ele muito bacana. Acho que nós estamos num momento de realmente um ciclo novo e muito bacana, com jogadores super novos que, se tudo der certo, vão estar liderando isso por 10, 12, 15 anos."

O segredo da longevidade
Ao longo da carreira, Bruno conquistou seis títulos de Grand Slam e permaneceu entre os melhores do mundo por mais de duas décadas.

Segundo ele, a longevidade nunca dependeu apenas do treino dentro da quadra.

"O grande segredo da longevidade é o foco diário nos detalhes. Não só o tempo dedicado dentro de quadra, mas cuidar da recuperação, cuidar do sono, cuidar da preparação física, cuidar do aspecto mental da coisa e ter certeza de que todas essas caixinhas vão estar sempre alinhadas e bem cuidadas."

Quando olha para trás, acredita que apenas uma coisa poderia ter acontecido mais cedo. "Quanto antes a gente entende o nível de dedicação e profissionalismo que é necessário para se tornar um grande atleta, menos difícil fica esse processo."

Um novo papel no esporte
Depois da aposentadoria, Bruno passou a acompanhar o circuito também como comentarista. Hoje, enxerga o jogo por uma perspectiva diferente.

"É alguém que viveu aquilo ali a vida toda e agora tem o dever de conseguir analisar aquilo da forma mais técnica e profissional possível, mas passar para as pessoas de uma forma leve e natural."

Apesar da boa campanha em Wimbledon, ele garante que não existe vontade de voltar ao circuito profissional. "Minha missão no circuito foi cumprida. Fui profissional de tênis por 22 anos, conquistei muito mais do que sonhava, joguei muito mais tempo do que esperava. Hoje meu tempo é dedicado ao meu trabalho, à minha família, aos meus filhos."

A endorfina continua a mesma
A sensação que dá nome ao Jornal Endorfina continua presente na rotina de Bruno, ainda que de uma maneira diferente.

Ela aparece nos treinos, jogando tênis com o filho, praticando outras modalidades ou simplesmente voltando a pisar na grama de Wimbledon. Não pela busca de novos títulos, mas pelo privilégio de continuar fazendo parte daquele cenário.

"Dentro de quadra, essa endorfina vem de um jeito diferente. É uma endorfina muito mental, de olhar aquilo tudo ali e ter aquela sensação de: 'Eu estou num lugar muito especial'. É uma sensação enorme de gratidão, respeito." 

Mais do que uma campanha em um torneio de Legends, a volta de Bruno Soares a Wimbledon simboliza o reconhecimento de uma trajetória construída ao longo de mais de duas décadas no mais alto nível do tênis mundial.

Enquanto acompanha de perto uma nova geração de brasileiros surgindo nas quadras, o mineiro mostra que alguns legados não se medem apenas pelos seis títulos de Grand Slam conquistados ou pelas finais disputadas. Eles também aparecem nos convites que chegam depois da aposentadoria, no respeito dos adversários e na certeza de que o menino que treinava diariamente em Belo Horizonte conseguiu, de fato, viver o sonho que imaginou um dia.

E talvez seja justamente essa a melhor definição de endorfina: a satisfação de olhar para trás, reconhecer o caminho percorrido e perceber que o esporte continua sendo, acima de tudo, um lugar de pertencimento. 

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