
Estar em Niseko, no Japão, para disputar um Campeonato Mundial não foi simplesmente uma questão de colocar a bicicleta no avião. Para Hugo Prado, chegar até ali envolveu meses de preparação e uma série de escolhas que ultrapassam o treinamento. “Significa vários sacrifícios financeiros, de tempo, de distância da família. Estar numa empreitada dessa exige uma preparação física, mental, emocional e até espiritual.”
Hugo chegou ao Mundial com uma certeza construída durante a preparação: estava pronto. “Eu não fui lá para participar do mundial, eu fui em busca de um título” Para isso, a preparação mental teve o mesmo peso que a física. Segundo ele, os números na bicicleta mostravam que o trabalho havia sido feito e isso permitiu mudar a chave para a confiança. “Eu fiz uma preparação praticamente impecável. Não deu nada de errado, meus números em cima da bike estavam ótimos.” A estratégia passou então a ser também mental: visualizar cenários positivos e manter uma confiança inabalável, independentemente do que acontecesse durante a prova.
O Mundial também marcou algo simbólico para Hugo: a Ásia era o último continente em que ainda não havia competido. Ao longo do ano, ele passou um mês na Espanha com a família e reforçou uma convicção que leva para dentro e para fora do esporte: viajar amplia a visão de mundo.“Abre a nossa cabeça. A gente tem visões de negócio diferentes, de alimentação, de comportamento, de atitude.” Para ele, conhecer outras culturas também faz parte da formação de um atleta e de um ser humano. “Na parte de atleta, de business, que é o meu business ser atleta e treinar outros atletas, fica uma bagagem ainda maior desses 30 anos.”

A passagem pelo Japão foi uma imersão cultural. Hugo se surpreendeu com a organização, limpeza e os costumes locais. “Eles têm costumes milenares, são muito silenciosos, são limpos, organizados.” E mergulhou literalmente na experiência. Entre sushi no café da manhã e a rotina de recuperação no onsen, tradição japonesa de banhos termais, ele aproveitou para conhecer um pouco mais do país. “Eu mergulhei tanto na culinária [...] tem o onsen, que é basicamente você entra pelado numa piscina, uma banheira de água a 42 graus. É uma tradição milenar que ajuda demais na recuperação, no relaxamento.” Depois de competir em diferentes partes do mundo, o Japão fechou um ciclo para Hugo: agora, ele já teve a oportunidade de viver o esporte nos diferentes continentes.
Para Hugo, o conceito de alta performance não está apenas relacionado ao resultado. Desde que se tornou atleta profissional, decidiu também estudar para poder ajudar outras pessoas a alcançar performance. E existe um princípio que resume sua filosofia: não se acomodar na mediocridade. “Eu gosto muito de motivar as pessoas a não serem medianos.” É o que ele chama de skin in the game: viver na prática aquilo que ensina. Na prova, isso significa algo aparentemente simples, mas extremamente difícil: “Entregar o melhor no dia da corrida é fazer os movimentos corretos, não deixar a mente vagar com o pensamento de outras coisas que não seja ali, estar presente.” Para ele, estar presente é uma das maiores dificuldades do ser humano. E também uma das maiores ferramentas de evolução. A dor termina na linha de chegada Quando as pernas começam a pesar, não existe fórmula mágica.
“A prova só termina quando acaba a pressão, só termina quando chega na linha de chegada.” A dor faz parte. O que muda é a maneira como cada atleta se relaciona com ela. E talvez seja justamente aí que a história de Hugo ultrapasse o ciclismo.
O Mundial decidido na estratégia
Com quase 140 km de percurso e grandes trechos de subida, Hugo sabia que não poderia simplesmente esperar pela chegada. O reconhecimento do trajeto foi fundamental para entender onde economizar energia, onde acompanhar os principais atletas e, principalmente, onde fazer sua prova. A grande aposta estava na subida de aproximadamente 21 km no meio para o final do percurso. A ideia era acompanhar os principais nomes nos primeiros quilômetros e, depois, aumentar progressivamente o esforço. “Eu iria fazer um esforço onde eu iria colocar uma força grande, fazer bastante força, mas não 100%, porque tem uma subida na sequência, mais no final da prova, de seis quilômetros, que com certeza ia definir.” E definiu. Quando a estratégia encontra a dinâmica da prova. O problema é que uma corrida de estrada nunca acontece exatamente como planejado. O Japão tinha uma equipe numerosa e o favorito local estava entre os nomes mais fortes da prova. Para Hugo, a dinâmica do pelotão acabou dificultando uma seleção antecipada. “Eu fiquei preso nesse grupo, porque toda hora que eu tentava sair vinha gente.”A subida longa, que poderia ser o momento de reduzir drasticamente o grupo, não foi seletiva o suficiente. Mais de 70 atletas da categoria de Hugo chegaram juntos à descida. Para um atleta que não considera o sprint seu principal ponto forte, isso estava longe do cenário ideal. “Eu queria chegar com o mínimo de atletas no final da prova possível, porque eu não tenho um sprint muito bom.” Tudo ou nada nos últimos seis quilômetros Se a subida de 21 km não havia definido a prova, a última subida, de aproximadamente seis quilômetros, seria o momento. Ali estavam os trechos mais íngremes e, ao mesmo tempo, todos já acumulavam mais de 120 km de esforço.“Era ali que era tudo ou nada.” O grupo, que tinha cerca de 70 atletas, foi reduzido para aproximadamente 1012. Mas os principais escapados já estavam à frente. Depois da subida, veio praticamente uma descida até a chegada e o grupo não conseguiu se organizar para buscar quem havia escapado. A prova terminou em um jogo de acelerações e, finalmente, no sprint.
Talvez uma das principais batalhas de Hugo tenha acontecido antes mesmo da largada: não se colocar abaixo dos atletas que estavam ao seu lado. Com quase 30 anos de experiência competindo e treinando outros atletas, ele sabia reconhecer quando estava preparado. “Eu sabia que estava forte. Eu sou coach, então já tenho uma noção do que é ser forte, do que é estar preparado ou não.” Por isso, a escolha foi clara: “Eu evitei traçar um espírito vira-lata que às vezes nós brasileiros temos, e joguei o jogo de igual para igual.” O resultado? Em vez de pressão, vontade de competir.
“Nada é impossível”Hugo não fala sobre inspiração a partir de uma posição distante. Ele fala a partir da própria história. Na adolescência, ouviu que era hiperativo e que não daria em nada. Hoje, quase 30 anos depois, é atleta, coach e acaba de disputar um Mundial do outro lado do planeta. “Eu sou uma história real de acreditar em mim mesmo.” Por isso, sua mensagem para quem pedala no Brasil e enxerga um Mundial como algo muito distante não é necessariamente sobre chegar ao pódio. É sobre começar a acreditar que aquilo pode ser possível. “Eu acho que nada é impossível.” E, em um mundo cada vez mais preocupado com redes sociais, opiniões e validação externa, Hugo acredita que o esporte pode ser justamente o caminho contrário: voltar para si.“Quanto mais você se aprofundar, mais você se conhecer, mais você vai evoluir em todas as áreas.” No fim, talvez esse seja o verdadeiro significado de um Mundial: não apenas descobrir até onde o corpo consegue ir, mas descobrir o quanto você é capaz de acreditar em si mesmo.