A longa estrada de Gustavo Maroca até o primeiro 70.3.
Quando Gustavo Maroca chegou ao pelotão de terça e quinta, em Belo Horizonte, ele era um dos mais novos dali. Tinha pouco mais de 20 anos e uma relação cada vez mais séria com a bicicleta. Foi também ali que Dudu, fundador da Vörr, o conheceu.
“Eu conheci realmente no pelotão quando ele chegou lá, novinho”, conta.
Na época, Gustavo já chamava atenção entre os ciclistas do grupo. Anos depois, aquela relação ganhou outros contornos. Ele se tornou um dos principais clientes da Vörr no B2B, passou a representar a marca em Lafaiete, na loja da família, e acabou construindo uma amizade próxima com os fundadores. A bicicleta, porém, tinha aparecido bem antes disso.
O mais novo do pelotão
Gustavo começou a pedalar ainda adolescente, em Lafaiete. Aos 16 anos, mudou-se para Belo Horizonte para fazer o terceiro ano e, por um tempo, deixou a bicicleta de lado. Vieram os amigos, as festas e uma rotina mais noturna.
Foi perto da entrada na faculdade que ele voltou.
Primeiro, nas trilhas de fim de semana com um amigo. Depois, descobriu o pelotão que saía às terças e quintas, comprou uma speed e começou a aparecer por lá. “Era basicamente eu e um tanto de gente mais velha, de 30, 40 anos”, lembra.
Aos poucos, foi entrando naquele universo. Participava dos eventos, conhecia mais gente e começou a querer treinar de forma mais estruturada. Procurou uma assessoria que costumava ver no Belvedere e passou a ter orientação no ciclismo. Depois veio a corrida, inspirado também pela trajetória do treinador. Mari, hoje sua noiva, começou a correr no mesmo dia. Os dois ainda guardam uma foto daquele momento, no Belvedere.
Depois veio a natação.
Era 2019, e o triatlo finalmente tinha entrado na história. O primeiro 70.3 ficou pelo caminho A primeira tentativa de Gustavo de fazer um 70.3 nunca chegou à largada. Ele passou um ano treinando para a prova. Fez um camp em Goiânia, tinha uma viagem para Mallorca planejada para os últimos 15 dias de preparação e colocou o desempenho no centro da rotina. Naquele período, uma marca abaixo de cinco horas poderia significar uma chance de vaga para o Mundial, e essa possibilidade passou a ocupar espaço demais na cabeça dele.
"Eu fazia a minha vida caber dentro do treinamento do 70.3", lembra.
A pandemia interrompeu tudo antes da prova. De volta à casa dos pais, com piscinas fechadas e a rotina completamente alterada, Gustavo decidiu retornar ao mountain bike, esporte que tinha feito parte do início da sua relação com a bicicleta. O 70.3, porém, continuou como uma espécie de assunto pendente. Dessa vez, ele não queria simplesmente voltar a treinar e marcar outra prova. Queria esperar até conseguir fazer aquilo de outra maneira.
"Eu queria estar num momento de vida que aquilo não fosse tudo pra mim. Então eu só faria um novo 70.3 quando estivesse pronto."
Aprender a continuar
Os anos seguintes foram de idas e vindas dentro do esporte. Gustavo voltou ao mountain bike, mudou treinos, experimentou outras distâncias e correu duas maratonas: uma em Buenos Aires, no ano passado, e outra no início deste ano. Foi nesse período que percebeu que estava pronto para tentar novamente. Dessa vez, a prova continuava sendo um desafio, mas não precisava organizar a vida inteira ao redor dela. Talvez por isso ele fale tanto sobre o que acontece depois. 
“Hoje tem muita gente com muita ansiedade querendo fazer a prova de imediato, pra falar que completou um 70.3. Mas o mais desafiador é ter constância, querer fazer o esporte todos os dias, não fazer essa prova e no dia seguinte desligar.”
Do Rio para São Paulo
O plano inicial era fazer a prova no Rio de Janeiro, onde Mari mora. Gustavo imaginava que seria especial completar o primeiro 70.3 na cidade ao lado dela. Mas, durante a preparação, João, um de seus melhores amigos, faleceu.João faria a prova de São Paulo ao lado do irmão e de outro amigo. A partir dali, trocar o Rio por São Paulo passou a fazer sentido.
A mudança aconteceu em um ciclo que já vinha longe do planejado. Gustavo não tinha conseguido nadar como gostaria e chegou à prova sem ter feito uma preparação tradicional para aquele tipo de distância.
Mas havia também uma conversa que os dois tinham tido alguns meses antes. João insistia que Gustavo precisava se desafiar e colocar um número na prova, em vez de simplesmente largar com a ideia de "só participar". Gustavo levou aquela conversa para a preparação e transformou o tempo em um parâmetro pessoal.
"Quando a gente se inscreve pra uma prova, a gente precisa ter um objetivo, como tem na vida profissional e na pessoal. Afinal, dá pra conciliar um hobby com um desafio."
A lógica, para ele, é parecida com a que leva para o trabalho: estabelecer uma meta permite entender o que funcionou, onde havia margem e até se a dificuldade foi subestimada. Foi assim que ele chegou a São Paulo: com um ciclo imperfeito, uma meta na cabeça e um motivo que havia mudado completamente. 4h30 da manhã. A largada estava marcada para às seis da manhã. Antes disso, as bicicletas precisavam estar posicionadas na transição, e o grupo combinou de se encontrar às 4h30 na casa de um dos amigos. Quando Gustavo chegou, todo mundo já estava lá. Esposas, noivas e amigos que não fariam a prova também acordaram de madrugada para acompanhar o grupo.
"São vários momentos específicos, mas que tornam tudo especial", conta.
A prova começaria dali a pouco. Mas, para Gustavo, a história já tinha começado antes mesmo de entrar na água. Um nome no macaquinho foi na bicicleta que a presença de João ficou mais evidente. Todo o grupo usava o mesmo macaquinho, com o nome do amigo. Durante o pedal, Gustavo começou a alcançar os companheiros um por um. À frente, aparecia um macaquinho. Depois outro. Ele sabia que estava chegando perto dos amigos e que todos estavam fazendo aquela prova carregando a memória da mesma pessoa. A bicicleta também era a modalidade de que João mais gostava. Por isso, aquele trecho ganhou um significado diferente. Não era apenas uma questão de velocidade, potência ou tempo. Pedalar passou a ser também uma maneira de dividir aquele momento com alguém que não estava mais ali. Pequenas vitórias até o fim. Na corrida, o grupo passou oito vezes pela torcida. Chovia, mas as pessoas continuavam ali, vibrando a cada passagem. Quando o corpo começou a pedir para diminuir, Gustavo precisou recorrer a outra estratégia que já tinha aprendido em diferentes esportes: dividir uma grande distância em pequenos objetivos. 
Na natação, ele conta as braçadas até a próxima vez que vai olhar para a frente. Nas maratonas, programa alertas no relógio a cada seis quilômetros. Em pedais longos, estabelece cidades ou pontos intermediários como pequenas chegadas. A ideia veio de uma estratégia que ele aprendeu anos atrás: criar pequenas vitórias dentro de uma prova para conseguir chegar ao resultado final. Naquele dia, havia também uma razão maior.
"Eu tinha que estar ali completando a prova, fazendo força, que era o que ele queria."
A linha de chegada Antes de cruzar o pórtico, Gustavo viu Mari na torcida, debaixo da chuva e chorando. Ele também estava emocionado. O relógio marcava um resultado dentro da faixa que tinha estabelecido para si: entre 4h45 e 5h05 era o intervalo em que estaria satisfeito. Mas, naquele momento, o número já não era a única medida da prova. Havia a conversa com João, a madrugada na casa do amigo, os companheiros que ele encontrou na bicicleta, a torcida debaixo da chuva e todos os anos que tinham começado muito antes, ainda nos pedais de Lafaiete.
"Foi uma realização pessoal", diz.
O primeiro 70.3 finalmente tinha acontecido. Só que, olhando para trás, a prova parecia menos uma chegada e mais a continuação de uma história que começou com uma bicicleta, passou por um pelotão de terça e quinta, foi interrompida por uma pandemia e ganhou um novo sentido no caminho até São Paulo. Para Gustavo, talvez esse seja justamente o ponto: o desafio não termina quando o relógio para.
"Eu acho que o que é mais desafiador é a gente conseguir ter constância nos resultados, uma constância de querer fazer o esporte todos os dias."
Quando o esporte vira estilo de vida. A relação de Gustavo com a Vörr começou ainda nos primeiros anos do triatlo. Ele já acompanhava a marca e se identificava principalmente com a proposta que ia além da competição: roupas e produtos pensados para uma vida em movimento. Na época, o esporte também aproximava os dois lados. Gustavo convivia com um grupo de ciclistas e triatletas que já consumia a marca e, pouco a pouco, essa conexão passou a existir também no ambiente profissional. Hoje, ele acompanha de perto a evolução da Vörr e participa desse processo por meio da loja da família em Lafaiete. Para ele, a identificação continua justamente porque a marca não fala apenas sobre performance.
"O que eu sempre vi foi isso: a Vörr buscando crescer, buscando inovar, trazendo coisas novas", conta.
Essa relação também acompanha a forma como ele próprio passou a enxergar o esporte. Depois de anos entre bicicleta, corrida, natação e provas de longa distância, Gustavo já não vê a atividade física apenas como preparação para uma competição. Ela faz parte da rotina, das relações e do jeito como escolhe viver.
"O esporte sempre uniu", resume.
E, no caso dele, essa conexão acabou atravessando também a vida profissional.