Para quem acompanha o ciclismo, Luiz Perrella já é um rosto conhecido. Para quem está chegando agora nesse universo, vale contextualizar: aos 42 anos, Perrella tem uma relação de muitos anos com o esporte, que começou ainda no basquete e, mais tarde, encontrou na bicicleta uma nova forma de competir, viajar e estar com os amigos.

Ele já participou de diferentes provas de ciclismo, entre elas o L’Étape Brasil e a Brasil Ride, e acabou construindo também uma presença nas redes sociais em torno desse universo. Por lá, compartilha treinos, provas, viagens e, principalmente, a vida que acontece em volta da bicicleta.
Em 2021, por exemplo, formou dupla com Rodrigo Hilbert na Brasil Ride. Mas talvez seja justamente a maneira como Perrella fala sobre o esporte que melhor explique o espaço que ele ocupa dentro dessa comunidade. Para ele, pedalar nunca foi apenas uma questão de tempo, potência ou resultado. Existe a competição, claro, mas também existem os amigos, as viagens, o pelotão, as histórias e as pessoas que começam a pedalar depois de acompanhar alguém como ele.

Foi com essa perspectiva que Perrella voltou a Campos do Jordão para mais uma edição do L’Étape Brasil. E, depois de cruzar a linha de chegada, a conversa foi muito além da prova.
Um percurso que faz voltar
As montanhas da Mantiqueira estão entre os principais motivos que fazem Perrella voltar ao L’Étape todos os anos. Para ele, o percurso de Campos do Jordão consegue reunir diferentes tipos de desafio em uma mesma prova.
“É um dos percursos mais legais. É bem completo, com bastante descida, bastante subida e trechos bem desafiadores. Isso que me faz voltar lá todo ano.”
Nesta edição, porém, teve outro elemento que marcou a experiência. Perrella começou a prova ao lado de um grande amigo e os dois fizeram boa parte do percurso juntos. Depois, outro amigo chegou. Em determinado momento, um ficou para trás e o outro continuou com ele até a chegada.
“Comecei a prova com um grande amigo e terminei com um maior ainda.”
Para ele, é justamente esse tipo de situação que mostra o que existe além da competição. As conexões criadas pelo esporte acabam fazendo parte da experiência tanto quanto o próprio percurso.
Subida, descida e tudo que acontece no caminho
Se tem uma coisa que Perrella gosta no percurso de Campos é a variedade. “É tão gostoso subir quanto descer”, conta. Os trechos planos também têm seu papel e ajudam a completar a experiência de uma prova que, para ele, entrega um pouco de tudo.
Mas a evolução do L’Étape, na visão de Perrella, não está apenas na estrutura do percurso. A prova também passou a entregar uma experiência cada vez mais completa para quem participa.
E isso envolve entender que o público de uma prova desse tamanho não é formado apenas por atletas em busca de resultado.
“É o pai de família, é o cara que treinou para estar ali, para entregar o seu melhor.”
Essa mistura de perfis também é uma das características que, para ele, ajudaram o L’Étape a ganhar espaço no ciclismo brasileiro. A prova reúne atletas de diferentes níveis, tem disputas na frente do pelotão e, ao mesmo tempo, cria um ambiente em que muita gente está ali simplesmente porque treinou durante meses para conseguir completar aquele desafio.
O que fica depois da linha de chegada
Perrella acredita que o impacto de uma prova como o L’Étape também está nessa capacidade de colocar mais pessoas em contato com o ciclismo. E, quando fala sobre o que o atrai nesse universo, ele não começa pela performance.
Fala da viagem com a esposa, do hotel, do café da manhã, da resenha e dos amigos.
“Eu acho que o esporte entrega muito mais do que performance. Performance é legal, mas vamos deixar a performance no topo para quem é atleta profissional. Para quem não é, eu acredito que a gente tem que mudar um pouco o mindset sobre a bicicleta.”
A competição continua fazendo parte da experiência. Mas, para Perrella, ela não precisa ser o único motivo para estar ali. É uma percepção que foi mudando com o tempo. Potência, desempenho e disputa continuam sendo interessantes, mas ele passou a prestar mais atenção em tudo que acontece ao redor da prova.
“A experiência como um todo. Eu falo que é do entrar pela porta até sair. É de quando começa o evento até a hora que termina.”
A dinâmica do pelotão
Para quem acompanha o ciclismo de fora, talvez uma das experiências mais difíceis de entender seja justamente a de estar dentro de um pelotão. Perrella reconhece que existe uma adaptação e que é preciso ter experiência para pedalar naquele contexto. Mas, depois que o ciclista encontra seu espaço, a sensação muda.
“A dinâmica do pelotão é demais.”
E ele faz questão de não limitar essa experiência ao pelotão da frente. Para ele, estar em um grupo, encontrar o ritmo e sentir a dinâmica de dezenas de pessoas pedalando juntas é uma das coisas que fazem o ciclismo ser tão interessante.
“Se eu puder deixar uma coisa para todo mundo aqui, se empenhe um pouquinho para entrar em alguns pelotões e sentir isso. É animal, é de arrepiar.”
Quando o esporte começa a chegar em outras pessoas
A relação de Perrella com a bicicleta também ganhou outra dimensão conforme mais pessoas começaram a acompanhá-lo.
Ele conta que já perdeu a conta de quantas pessoas começaram a pedalar ou fizeram a primeira prova depois de acompanhá-lo. Durante as próprias competições, é comum ouvir alguém chamando seu nome no meio do percurso.
“Muita gente começou a pedalar porque me acompanha, que se inscreveu numa primeira prova. Eu acho isso fantástico.”
Para ele, esse retorno funciona como um incentivo para continuar compartilhando o esporte e tudo que existe ao redor dele.
“Isso dá uma energia, dá uma força para continuar trazendo coisas legais, para continuar fomentando esporte.”
A ideia, inclusive, não precisa necessariamente terminar na bicicleta. Perrella fala sobre incentivar as pessoas a encontrarem qualquer modalidade que faça sentido para elas: seja bike, treinamento funcional ou outro esporte. A relação com o movimento, para ele, é o que importa.

Menos provas, mais processo
Essa forma de enxergar o esporte também mudou a maneira como Perrella viveu 2026. Ele fez menos provas este ano, mas não considera isso necessariamente uma perda. Pelo contrário. A sensação é de ter aproveitado mais tudo que existia entre uma prova e outra.
“Eu fiz menos provas esse ano, mas eu curti muito mais o processo. O processo do treino, o processo do final de semana, pedalando com mais amigos e estando numa vibe boa em provas legais. Acho que foi top, foi na medida. Não foi nem mais nem menos.”
O L’Étape em Campos do Jordão acabou funcionando como mais um capítulo desse processo. Uma prova difícil, um percurso que ele gosta, alguns amigos pelo caminho e uma chegada que ganhou um significado especial justamente por ter sido compartilhada. E, enquanto 2026 vai chegando ao fim, 2027 já começa a aparecer no horizonte. Algumas provas grandes já estão no radar e ainda existe a possibilidade de uma competição no fim deste ano. Mas, olhando para tudo que o ciclismo representa hoje, talvez a próxima prova seja só uma parte da história. Perrella parece mais interessado em continuar vivendo o processo: treinar, viajar, pedalar com os amigos, conhecer gente nova e, no caminho, fazer com que mais pessoas descubram o que existe para além da performance. “Eu vou ser um fomentador do esporte o resto da minha vida.”